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Reformas Vs crescimento

 O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, questionou em entrevista ao programa "Canal Livre" da BandNews, a razão de a economia brasileira crescer tão pouco, mesmo depois das reformas liberais implementadas desde o governo Temer. 

 A visão da maior autoridade monetária do país, foi compartilhada numa reportagem que trouxe o tema, publicada no site do jornal Folha de S.Paulo, no final da noite do último domingo (27). 
 
 Para ele, a pergunta de US$ 1 milhão, é o que o Brasil precisa fazer para ter crescimento estrutural de longo prazo e salientou sobre estudos realizados pelo próprio Banco Central sobre estimativas de crescimento da economia. 

 Campos Neto disse que com base nesses estudos, a economia brasileira que crescia a uma média anual de 2% e 2,5% (que já eram taxas muito baixas para uma economia emergente como a do Brasil), agora cresce algo ao redor de 1% e 1,5%.

 Ocorre que o Brasil não parece mais ter o perfil de uma economia à qual a academia científica de organismos internacionais como o Banco Mundial e o FMI, ou mesmo, o próprio mercado de capitais, apontam como sendo "emergente".

 Até porque, o próprio governo decidiu abrir mão da condição de "economia emergente" como parte das negociações de adesão do Brasil à OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), considerado o "clube dos países ricos", além de prometer zerar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o mercado doméstico de câmbio. 

 Justamente por conta disso, o Brasil também apresenta traços dúbios ao redor do seu comportamento enquanto aquilo que caracteriza seu perfil econômico (ora se portando como emergente e outras vezes, como país desenvolvido).

 Talvez por essa razão, o diagnóstico de que as reformas liberais adotadas, como medidas de alavancagem do crescimento econômico, se mostraram equivocadas por serem mais adequadas para economias mais dinâmicas, do que para o Brasil, à qual ainda possui traços de economia emergente. 

 Mas nem toda a imprensa interpreta de modo literal a visão do presidente do Banco Central, de que somente as reformas devessem ser suficientes para a alavancagem econômica brasileira. 

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, durante entrevista a programa de TV - Foto: Reprodução/ Band Jornalismo.

 Uma parte dela, composta por jornalistas independentes e que fazem cobertura sobre economia (sendo por isso não vinculados a grandes veículos noticiosos), além de discordar da visão de economistas ortodoxos, como Campos Neto, propagam a ideia de que as reformas foram executadas de modo equivocado e que por essa razão, o crescimento econômico não aconteceu.

 Além disso, o presidente do BC indica ignorar fatores externos como a pandemia e agora a guerra na Ucrânia, que acabaram por gerar o que os economistas chamam de "desarranjo na cadeia global de suprimentos", gerando inflação de custos e que o próprio Banco Central tenta combater através da elevação da taxa básica de juros (à qual inibe o crescimento).
 
 Trata-se de inconformidades na oferta regular de insumos, matérias-primas e peças de alta sofisticação tecnológica (como semicondutores), essenciais para linhas de produção em escala industrial.

 Assim sendo este, é mais um efeito colateral que a globalização causou nas economias de todo o planeta, pois alguns países ficaram dependentes de insumos fornecidos por outros e o fato de crises sanitárias e diplomáticas, agravarem a regularidade de suas ofertas, gerou desequilíbrios observados como agora. 

 A diretora-executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, disse que a entidade "foi pega de surpresa" no que se refere à fragilidade das cadeias produtivas globais; algo que denota a extrema preocupação do fundo com macroeconomias emergentes como o Brasil e total ausência do mesmo cuidado com o comportamento de atores do setor privado. 

 Tanto a visão da diretora do FMI, como a do presidente do Banco Central brasileiro, reforçam um ponto de vista extremamente comum entre o perfil daqueles que professam a filosofia liberal como remédio adequado para todos os casos e situações, apenas obedecendo os manuais ortodoxos das escolas liberais de economia. 

 Assim, é complicado para eles, entender que a diferenciação entre "remédio" ou "veneno", é tão somente a dosagem adequada da medicação.

Fausto Oliveira é jornalista independente e 
questiona sempre ações de governo e do 
Banco Central, inspiradas em critérios 
liberais - Foto: Arquivo Pessoal.
 Campos Neto dá mostras portanto, de que jamais entenderá que o fator produtividade per-capita, isto é, por trabalhador (que é muito baixa no Brasil, inclusive para padrões da OCDE), se não for devidamente corrigido, não tem política monetária ou reformas constitucionais que farão a economia crescer, por si só. 

 E isso não tem nada a ver com qualificação ou baixo nível de instrução da mão de obra; é tão somente por falta de investimento privado nas cadeias produtivas, às quais, como já apontado, entraram em desarranjo, justamente pelo baixo investimento no aperfeiçoamento de suas linhas de produção, não somente no Brasil, mas como observado, no mundo todo.

 Além disso, o presidente do Banco Central, não fez qualquer avaliação sobre a política de renúncias fiscais adotadas pelo governo (algo ao redor de R$ 370 bilhões deixados de serem arrecadados em impostos), às quais em tese, seriam direcionadas ao crescimento econômico e que não surtem absolutamente nenhum efeito sobre o PIB (Produto Interno Bruto) nacional.  

 Outros fatores dos quais os liberais não abrem mão, é a privatização de empresas estratégicas para um projeto de retomada econômica, tais como aquelas do seguimento de energia como a Eletrobras e a Petrobras; mas Campos Neto e Georgieva, acreditam que o setor privado, sem nenhum incentivo ou ação efetiva de Estado nesse sentido, irá por ele próprio, alavancar economias.
 
Kristalina Georgieva, diretora-executiva
do FMI - Foto: Olivier Douliery/ AFP.
 É complicado para essa gente perceber que ao setor privado, não interessa crescimento econômico ou controle da inflação; se há mais ou menos gente empregada e com bons salários e se por conta disso, haverá aumento no consumo, obrigando as cadeias produtivas a aumentar seus ritmos de produção. Para o setor privado a única coisa que interessa, é a lucratividade.

 Algo que as crises globais provocadas pela pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia deixam claro, é que a globalização falhou e que por isso, o mundo passa por um processo de desglobalização, já que a dependência do fornecimento de matérias-primas ou insumos de países os quais "podem vir a se tornar hostis", é algo que os antigos defensores da tese, jamais previram.

 Por isso para atores privados que controlam cadeias produtivas, quanto mais caos, melhor, pois seus lucros aumentam em cima de menores quantidades produzidas e com a mesma demanda constante. E o resultado disso é estagflação; que é a junção de economia estagnada (que não cresce), com inflação.

 Fatores que economistas como o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e a diretora-executiva do FMI, Kristalina Georgieva, não sabem (e por isso são "pegos de surpresa"), pois dedicaram tempo demais, apenas para se cumprir regrinhas liberais às quais só atendem a interesses privados e não a conjunturas econômicas de Estado.

 Outro aspecto ignorado, foi que a sangria na cadeia global de suprimentos, não ter se dado por questões de aumento da inadimplência, pelo fato de parte dos agentes econômicos terem de obedecer a lockdows e quarentenas, comprometendo por isso, suas receitas e através de tais fatores, o pagamento de passivos, junto a seus fornecedores. 

 Trata-se portanto, de algo que foge da alçada técnica na qual esses dois interlocutores citados mais tarde, se veem pegos de surpresa. 

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