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Estoicismo - Virtudes plenas, superação do sofrimento e artificialismos contemporâneos

Reivindicada por coachs na atualidade, como ferramenta capaz de fazer uma pessoa se tornar mais produtiva, de alta performance, além da obtenção do controle emocional e habilita-la a ser bem-sucedida em situações corporativas e empresariais, o estoicismo teve por essa razão, sua proposta original desvirtuada, desde suas primeiras e maiores percepções vislumbradas por seus fundadores na antiguidade; a noção de acontecimentos que estão sob o nosso controle, de outros que não estão.

Zenão de Cítio foi o primeiro filósofo 
estoico - Foto: Reprodução
Enquanto coachs contemporâneos afirmam inspirarem-se no estoicismo, indicando ser possível o controle do tempo, por exemplo, filósofos como Zenão de Cítio, Sêneca, Epiteto e o imperador romano Marco Aurélio, concluíram exatamente o oposto, da interpretação dos profissionais que se apresentam como orientadores técnicos de outros, na atualidade; geralmente inseridos nos ambientes corporativos de grandes empresas, ou ao redor de gestores de seus próprios empreendimentos.

Para corroborar a percepção de que o estoicismo foi desvirtuado, em sua proposta no universo coaching, o filósofo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Aldo Dinucci, ouvido pela BBC News Brasil, salientou que o pano de fundo, no uso da filosofia por esses profissionais, está no individualismo que se caracteriza como essência das relações interpessoais na sociedade atual e se evidencia mais no comportamento de competição e rivalidade observado nos recintos empresariais.

Através da forma conflituosa com que as pessoas lidam com a sociedade, a família e principalmente, o trabalho, passou a ser comum, a partir dessa premissa, o uso de termos ou expressões como resiliência, perseverança e resistência, em formas didáticas ao enfrentamento de adversidades do dia a dia; adotadas como instrumentos de persuasão da parte dos profissionais do coaching em relação a seus clientes. 

Por meio dessa reinterpretação moderna dos coachs para com o estoicismo, o entendimento é que se trata de uma visão bastante limitada, por desconsiderar pontos fundamentais como a reintegração do ser humano com a natureza e a noção de uma vida em comunidade, conforme mencionado pelo professor Dinucci à BBC News Brasil. 

Enfim, a tentativa tresloucada de se associar uma filosofia de dois mil e trezentos atrás, onde o cenário e o modo de vida eram totalmente diferentes de hoje, se faz como algo muito equivocado e infeliz. 

Mesmo porque, os filósofos da escola estoica não buscavam o sucesso ou resultados satisfatórios à qualquer custo, hoje traduzidos em grandes lucros para as empresas; e muito menos, sofriam dos dilemas genuínos do Século 21. Estavam muito mais inclinados para a prática das virtudes, do que competição ou rivalidade e individualismo, peculiares em nosso meio, caracterizado pelo capitalismo liberal de nossos dias. 

Outra particularidade dos estoicos, é que não havia a preocupação atual com a autoimagem, muito em evidência através da exposição exagerada de pessoas nas redes sociais. 

Nesse propósito portanto, aquilo que se entende por estoicismo "contemporâneo", passa muito longe da proposta original pregada pelos primeiros e mais notáveis filósofos estoicos, já que a vaidade, não se reflete como a virtude inicialmente evocada, entre os últimos séculos antes da era comum, e os primeiros centenários de nossa história.

Isso porque, para os estoicos da antiguidade, as virtudes de alguém, poderiam ser mensuradas por suas capacidades, amparadas em quatro princípios básicos: sabedoria, coragem, moderação e justiça

Nos dias atuais, onde a competição e a rivalidade entre as pessoas se tornou comum, a sabedoria foi subvertida por esperteza; a coragem é confundida com agressividade; a moderação é vista como algo negativo (talvez muito associada a passividade ou letargia); e a justiça, por certo, pode estar sendo interpretada como "direito de vingança".

Com isso, emerge a irresponsabilidade dos coachs que distorceram o estoicismo, ao tentarem expor algo completamente oposto àquilo que os filósofos estoicos pregavam, já que rivalidade e competitividade entre membros de uma comunidade, ou qualquer outro tipo de ambiente coletivo, sequer eram concebidas. 

Mas pelo menos num aspecto, o estoicismo de 2026 se assemelha à filosofia "raiz" de Zenão de Cítio, que viveu por volta de 213, antes de Cristo. A ideia de coisas que podem ser controladas, de outras que não podem. 

Desse modo, se podemos "controlar" o que pensamos ou sentimos, não podemos controlar, por exemplo, a percepção de outras pessoas sobre nós mesmos (ainda que nos esforcemos e façamos o melhor possível). Mesmo assim, na versão coach, essa contextualização enfoca a possibilidade de controle do tempo, como sinal de responsabilidade individual de seus mentorados. 

O coaching, por vezes, apela ao estoicismo de forma errônea, como modo de ilustrar como seus clientes devem se comportar frente aos desafios - Foto: Reprodução.

A disciplina, muito evocada pelos coachs da atualidade, em que também está inserido o fator "tempo", está para os estoicos gregos e romanos da antiguidade, mais relacionada ao cultivo das virtudes, que propriamente, uma questão meramente moral ou de autocontrole (já que nem preocupação com mensuração do tempo havia naquele tempo). 

Ou seja, o estoicismo prega algo que deve ser estimulado de dentro para fora e não apenas na mudança de hábitos que possam gerar algum tipo de sofrimento, na busca quase obsessiva por resultados favoráveis; este aliás, é outro aspecto do estoicismo, muito pouco abordado pelos coachs, que são formas de lidar com o sofrimento.

As frustrações por metas não atingidas ou perda de vitalidade, devido ao convívio com pessoas em ambientes tóxicos, é algo que para os coachs, só pode ser resolvido com mais determinação, foco e persistência; ignorando questões como traições ou trapaças das quais muitos de seus mentorandos estão sujeitos a serem vítimas; embora tal condição não seja recomendada por esses profissionais, dentro do que entendem se tratar por "vitimismo".

Isso por sua vez, pode explicar o aumento de diagnósticos nos casos de Síndrome de Burnout, ou outras doenças ocupacionais caracterizadas pelo esgotamento físico e mental, devido a questões que envolvam muita competitividade nos ambientes corporativos.

Vislumbrar a ideia de controle dos pensamentos, também é uma incoerência, já que os pensamentos não são necessariamente nossos; eles apenas surgem em nossas mentes e não há muito o que podemos fazer em relação a isso. Por outro lado, buscar o controle de reações e atitudes com relação a pensamentos invasivos mais perturbadores, pode ser possível, por meio de técnicas que os coachs abordam muito pouco, ou quase nada.

Nas filosofias orientais Zen, como o Budismo ou o Taoísmo, existe o estímulo à prática da meditação, como modo de controlar reações adversas aos pensamentos intrusivos; e para iniciados em estágios mais avançados ou evoluídos, é possível até, eliminar pensamentos por completo, contemplando a plenitude da existência particular do ser, em sua própria interioridade. 

Tudo através do estímulo à compaixão, onde aos poucos, sentimentos ruins trazidos por tais raciocínios, são substituídos por sensações nobres; algo que os profissionais do coaching, também não se interessam muito. 

Doutrinas exotéricas do cristianismo primitivo dos primeiros séculos, também abordaram essas dinâmicas; a separação de tempos dedicados a auto observação e ao auto conhecimento, como ferramentas de busca para o auto controle, eram bastante difundidos e estimulados entre seus membros. 

A Gnose dos primeiros séculos, e mais tarde na Idade Média, o Catarismo na França, eram filosofias cristãs que se firmavam ao redor desses preceitos, associados aos ensinamentos de Jesus Cristo. Algo possivelmente herdado dos essênios, uma seita judaica surgida pouco antes de Jesus e que era muito atuante em sua época.  

O estoicismo é a doutrina filosófica que mais se aproxima de outras similares orientais, como o Zen Budismo e o Taoísmo - Foto: Reprodução.

Honestidade interior e auto cuidado

A maior das premissas do estoicismo primitivo se concentra na prática das virtudes, que por sua vez, está ancorada na honestidade consigo mesmo; nessa concepção, o iniciado na filosofia estoica, precisa observar aspectos de sua própria personalidade e mensurar o quão é honesto em autopercepção, para a partir disso, praticar a virtude da honestidade com aqueles ao seu redor, de modo mais natural e espontâneo.

As reflexões incluem práticas da auto observância, além de falar menos e ouvir mais. Através disso, os estoicos acreditam que podem minimizar riscos e danos ao redor de problemas dos quais, não se pode ter controle. É a partir daí que surge o auto controle sobre comportamentos pessoais, como modo de atenuar as questões das quais não é possível, nenhum modo de gerenciamento pessoal.

Outros aspectos muito importantes da filosofia estoica se encontram na serenidade, na gentiliza, na gratidão e na compaixão; através disso, os primeiros praticantes do estoicismo acreditavam ser possível, a adoção de um estilo de vida que embora fosse amparado na disciplina, estivesse atento a hábitos muito rigorosos e excessivos, que pudessem gerar algum tipo de desconforto ou insatisfação pessoal, surgindo daí, a necessidade do desapego. 

A auto satisfação ao redor de coisas simples, vivendo o momento presente, sem traumas ou nostalgias do passado, além do descarte a pensamentos de ansiedade sobre acontecimentos imaginários do futuro, são aspectos muito presentes na escola estoica clássica.

O estoico é minimalista, vive com pouco, se satisfaz com o básico, busca estar sempre no momento presente e principalmente, não se deixa consumir pela falsa necessidade de se destacar na sociedade; adotar uma vida discreta e sutil é outra peculiaridade do estoicismo que os coachs contemporâneos simplesmente ignoram. 

Portanto, o estoico não faz da disciplina, algum tipo de investimento comportamental, para posterior reconhecimento público; e muito menos, visando com isso, fazer fortuna. 

É realmente possível aplicar o estoicismo como método para se alcançar sucesso profissional e empresarial? - Foto: Reprodução.

A disciplina para o estoico, está na prática da vida vivida com leveza e sem vaidades do ego. Ou seja, seguir o fluxo da vida, sem preocupações ou trivialidades mundanas cotidianas de hoje. Além de não ter metas para o futuro, como sugerem os coachs (já que o verdadeiro estoico, vive o agora). 

O estoicismo respeita a individualidade como ato de interiorização para evolução interna humana, mas jamais prega individualismo ou rivalidades entre pessoas. E acima de tudo, respeita a natureza e os animais. 

Contudo, o que os estoicos também são mais conscientes, é que não devemos ser fortes o tempo todo; é preciso aprender a confiar na incerteza, na insegurança e na dúvida. A disciplina por meio de trabalho duro, esforço e dedicação, também são importantes, porém, dentro dos limites de cada um. 

É preciso respeitar as capacidades pessoais e não arriscar a saúde ou o vigor físico, ao redor de esforços muito acima das nossas próprias forças. O auto cuidado é essencial no estoicismo e se desgastar fisicamente movido por vaidades do ego, comprometendo a saúde do corpo, é visto como imprudência.

O estoicismo assim, sofre daquilo que todas as boas filosofias da antiguidade vivem hoje: são mal interpretadas. Todos querem dar seus toques pessoais no que entendem se tratar a filosofia estoica, sem renunciar ao básico: a vaidade do próprio ego, ao redor de achismos que passam longe de seu real propósito. 

Viver a vida em seus infortúnios ou momentos felizes, consciente de que tudo é transitório e passageiro é outra característica estoica. Algo que no Budismo é chamado de "impermanência"; sendo daí, a maior razão para a prática do desapego e que o estoicismo também recomenda. 

Enfim, não há nada que defina melhor o estoicismo, como a filosofia ocidental que mais se aproxima de outras orientais, como o Budismo, o Taoísmo ou a Gnose cristã, que é a aceitação da vida como ela é; sem romantismos, sem alegorias ilusórias emergidas da própria mente, ou por meio de sugestões externas que provoquem gatilhos emocionais nos indivíduos e os induza a adotar um modo de vida sem significado algum. 

Aceitar a vida como ela é, não significa concordar ou aceitar com tudo de ruim que ela nos apresenta, mas encarar a realidade de um modo, onde o que não está sob o nosso controle, deve seguir seu fluxo; muito menos, deixar-nos abater pelas adversidades cotidianas. Epiteto, filósofo grego estoico, que foi escravo, refletiu sobre isso como ninguém. 

Algo que os coachs contemporâneos, simplesmente ignoram, quando vendem cursos e mentorias embasados no estoicismo, que prometem sucesso, apenas com disciplina, trabalho e persistência.

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