Pular para o conteúdo principal

ECA: 25 anos

 Neste 13 de julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), vive sua fase mais decisiva, em meio ao bombardeio da opinião pública quanto a sua efetividade naquilo o que é mais importante para a sociedade: conter menores infratores. Contudo, o objetivo do ECA não é de apenas proteger ou simplesmente punir adolescentes. 

 Se o ECA não é cumprido em sua integralidade, ou não atende expectativas, a culpa não parece ser do próprio ECA, mas sim, do sistema que é formado por governos e judiciário os quais simplesmente não têm qualquer interesse para que o Estatuto vigore. 

 Sem dúvida, o que interfere negativamente em torno disso se dá pela falta de apoio de boa parte das prefeituras no fornecimento de estruturas adequadas para o completo funcionamento dos conselhos tutelares. De acordo com o Cadastro Nacional dos Conselhos Tutelares, existiam em 2013 cerca de 5906 conselhos no País, 632 a menos que o necessário. Sendo que 25% deles não têm telefone fixo e 37% não dispõem de linha celular. 

 Mesmo também proibindo o trabalho infantil a menores de 14 anos, dados de 2013 indicavam que cerca de mais de 3 milhões de crianças viviam em condições de trabalhos forçados. Porém para uma determinada parte da sociedade, o fato de haver crianças que em vez de estarem na escola, brincando ou vivendo suas infâncias normalmente, estarem trabalhando em ambientes insalubres ou perigosos, não representa nenhum tipo de preocupação para a mesma.

 Já em relação ao fato de menores praticarem crimes, essa mesma porção da sociedade é unânime: como o ECA parece não ter cumprido seu objetivo de conter a criminalidade entre menores, a saída seria aprisiona-los em unidades prisionais comuns em meio a criminosos profissionais adultos e mais experientes. Muitos desconhecem até mesmo que o ECA prevê a apreensão de menores em locais apropriados à suas faixas etárias.

 Porém governos estaduais como o de Goiás, se recusam a construir unidades de internação onde menores infratores pudessem ser recolhidos e passassem por um processo de recuperação social adequado dentro de parâmetros pedagógicos que contribuam para uma melhor formação humana desses menores. No entanto como a cultura popular acredita que os mesmos não sejam recuperáveis, assim, empunham o estandarte da punição pela punição, única e simples.     

 Embora o ECA em seus 25 anos pareça pouco efetivo, foi responsável por reduzir a mortalidade e o trabalho infantil e ainda por aumentar denúncias sobre maus tratos e violências (sejam físicas ou psicológicas), contra crianças e adolescentes. Somente no primeiro trimestre de 2015, foram registradas mais de 20 mil denúncias envolvendo situações de violência contra menores.

 Lógico que não há muito o que comemorar com o ECA, mas o que não temos mesmo de fato a comemorar, é o que a sociedade imediatista não tem feito no sentido de se cobrar de governos ações que levem ao pleno cumprimento do ECA. 

 Evitar que oportunistas venham a se candidatar a vagas nos conselhos tutelares, já se configura como um importante passo nesse sentido. Pessoas que nem mesmo sabem que o ECA além de ser um instrumento de proteção à criança e ao adolescente, prevê ainda a internação de menores infratores. Não apenas para puni-los, como também, para protege-los em sua integridade física, psicológica e principalmente ainda, de si mesmos. 

 O ECA precisa ser visto acima de tudo, como um instrumento de desintoxicação do jovem e ainda da própria sociedade que o condena. Que assim o faz simplesmente por ser jovem, pobre, negro e analfabeto. Portanto vulnerável e indefeso. O que o ECA nada mais fez em sua aparente "inutilidade", foi o de involuntariamente denunciar justamente aqueles que o acusam de ser um instrumento legal falho e ilegítimo.       

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Neoliberalismo X Keynesianismo

Texto revisado 23 de maio de 2012 por Marcio Marques Alves    Nos antagonismos das ideologias econômicas, sempre vemos florescer os debates sobre as correntes de pensamento que envolvem duas delas, ou suas maiores protagonistas do cenário econômico. Nesse contexto existe uma disputa à qual teve início já com o questionamento dos Estados Modernos do século XVI, despertando a ira daqueles - defensores do livre mercado e contrários a toda a concentração de renda e poder que havia em torno do Estado na figura das monarquias absolutistas -, através de impostos e extravagâncias da corte.   Mais ira se despertou ainda, com a infeliz frase de um monarca francês: "L'État c'est moi " (O Estado sou eu), que só pôde ser vingada em seu sucessor em 1789. Antes, outra revolução burguesa (a gloriosa), desta vez na Inglaterra, já havia dado ao país sua primeira Constituição e o seu parlamento, o que permitiu à Inglaterra ser a potência dos séculos XV...

Rio Verde moderna

 Dando seqüência ao último post, em comemoração ao aniversário de 164 anos de Rio Verde, no próximo dia 05 de agosto, vamos iniciar de onde paramos: a década de 1960, quando relatei que a cidade enfim, inebriava-se num breve período onde a dupla Mauro Borges (governador do Estado) e Paulo Campos (prefeito), inaugurava uma fase onde o centro de Rio Verde passava por sua modernização.   Ruas de terra ou calçadas com paralelepípedo em basalto davam lugar ao asfalto. O paralelepípedo teve uma outra destinação, e foi usado como guias de sarjetas das novas ruas recém-pavimentadas.  Os postes que sustentavam a rede de energia elétrica de aroeira, deram lugar a modernos postes de concreto e uma iluminação pública mais potente ganhava as ruas da cidade. Tudo da energia provida de Cachoeira Dourada.  Conta-se que a primeira rua a ser pavimentada foi a Rua João Belo, (atualmente, Rua São Sebastião no centro antigo de Rio Verde). E o asfalto ficou tão bom, que a n...

Dores do Rio Verde

Este mês comemoramos o tradicional aniversário de Rio Verde e fazemos aqui uma série com duas postagens sobre a história econômica desta que se tornou a grande surpresa da última década com seu vertiginoso crescimento. Desordenado é claro. E o pior! Sem nenhuma expectativa de que o seu padrão de expansão vá melhorar no futuro. Rio Verde surgiu no início do século XIX, com a doação de terras devolutas, feitas através de um decreto imperial que determinava a referida doação a quem se dispusesse a desbravá-las.  Foi nesse espírito desbravador que o 'paulista', José Rodrigues de Mendonça, saiu de sua cidade -Casa Branca, no interior de São Paulo- rumo às terras que já estavam destinadas a serem dele.  Rodrigues de Mendonça que dá nome a uma praça no ‘centro antigo’ de Rio Verde deve ter chegado à região entre 1838 e 1840.  Aproximadamente uma década depois, Rio Verde se emancipava com o nome oficial de: Nossa Senhora das Dores do Rio Verde ou simplesmente, ‘Dores do Ri...