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Filosofia de Schumpeter em Matrix - A IA não destruirá apenas empregos; destruirá o capitalismo

Joseph Schumpeter foi um dos mais notáveis economistas e cientistas políticos da primeira metade do Século 20; nascido em um território hoje pertencente à República Tcheca e que na ocasião fazia parte do Império Austro-Húngaro, é por isso considerado de nacionalidade austríaca. Schumpeter se formou ao lado de outro economista também muito respeitado, conhecido por suas ideias ultraliberais, Ludwig von Mises.

Em seu primeiro trabalho publicado, "A Teoria do Desenvolvimento Econômico" (1911), Schumpeter lançou as bases de uma ideia que seria melhor maturada em outra de suas obras. Foi na verdade em "Capitalismo, Socialismo e Democracia" (1942) na qual ele desenvolveu sua mais importante e famosa tese: aquilo que ele chamou de "destruição criativa".

Linhas de produção ou de distribuição de mercadorias, com atividades e tarefas totalmente desempenhadas por robôs humanoides, controlados por Inteligências Artificiais, parecem ser cada vez menos, fruto de imaginação popular de ficção científica, e mais próximas da realidade do que nunca - Foto: iStock/ Getty Images

Ainda de acordo com essa tese, da destruição criativa, o custo de produção devido aos ganhos de escala e de produtividade ficariam tão baratos, através de produtos e métodos produtivos inovadores, os quais "destruiriam" outros, arcaicos ou ultrapassados; ao ponto de qualquer pessoa assalariada pudesse ter acesso a eles - como de fato ocorreu nas economias avançadas do pós-guerra (1945 - 1973). 

Através disso, Schumpeter previu o colapso do próprio sistema capitalista no final do Século 20 (mais precisamente na virada de 1999 para o ano 2000). 

Esse fenômeno previsto por ele, ocorreria em face ao sucesso do próprio capitalismo. E não por obra de uma hipotética vitória do socialismo em decorrência da Guerra Fria, entre Estados Unidos e União Soviética, como de fato se temeu nos anos posteriores ao pós-guerra (Segunda Guerra Mundial).

Naquela ocasião, o conflito indireto entre as duas superpotências do Século 20 (EUA Vs URSS), já dava sinais latentes de eclosão, quando Joseph Schumpeter fez sua previsão, no início da década de 1940, ou seja, em plena vigência da Segunda Guerra Mundial onde os soviéticos ainda lutavam ao lado das potências aliadas (EUA, França, Reino Unido) contra as potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Joseph Schumpeter, economista liberal austríaco 
que previu o fim do capitalismo, na virada de 1999
para o ano 2000 - Foto: Wikimedia Commons

Pelo visto, a profecia de Schumpeter não aconteceu no tempo previsto, mas com o advento das Inteligências Artificiais, isso pode estar mais próximo de se realizar do que nunca. 

Com as IAs, segundo teóricos futuristas, os ganhos de produtividade e de escala, barateariam produtos em proporções inimagináveis; por outro lado, milhares de empregos seriam extintos e não havendo massa salarial capaz de consumir tantos produtos, ainda que mais baratos; o capitalismo enfim, entraria em colapso iminente.

Embora as previsões ao redor dos efeitos colaterais das IAs para as sociedades sejam o aumento exponencial do desemprego, o fato é que o risco maior está na sobrevivência do próprio modelo capitalista em si.

Síntese histórica no desenvolvimento da Inteligência Artificial 

A história da Inteligência Artificial (IA), iniciou-se em meados do Século 20, unindo matemática, filosofia e ciência da computação no propósito de se criar máquinas capazes de simular o raciocínio humano.

Primeiros fundamentos teóricos (1940 - 1950)

  • Em 1943, Warren McCulloch e Walter Pitts criaram o primeiro modelo matemático para o funcionamento de neurônios artificiais;
  • Em 1950, Alan Turing, o inglês considerado inventor do computador, propôs o Teste de Turing, que segundo ele, avaliaria se uma máquina teria capacidade cognitiva similar à de um ser humano;

Nascimento oficial da disciplina e primeiras inovações (1956 - 1960)

  • Durante a Conferência de Dartmouth, o cientista John McCarthy criou o termo "Inteligência Artificial" em 1956, marcando o início da IA, enquanto objeto de estudo, no campo acadêmico;
  • Já nas décadas de 1950 e 1960, surgem programas pioneiros como jogos de xadrez, damas e linguagens de programação Lisp, em 1958, como um processador de listas de dados simbólicos, também criada por John McCarthy

Hiato nas pesquisas (Invernos da IA) e retomada (1970 - 1990)

  • A falta de poder computacional avançado e as expectativas frustradas marcaram um período de estagnação nos avanços, reduzindo os financiamentos públicos para pesquisa e desenvolvimento de IA, o que ocasionou nos chamados "Invernos de IA";
  • Em 1997, o supercomputador Deep Blue da IBM, venceu o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov

Era do aprendizado profundo e a IA moderna (2010 - Presente)

  • A grande quantidade de dados disponíveis na internet e o uso de placas gráficas potentes deram impulso ao aprendizado profundo das máquinas a partir de 2012 (big data e GPUs);
  • Redes neurais avançadas permitiram o surgimento de assistentes virtuais de voz e geradores de texto sofisticados como o ChatGPT
Organoides cerebrais - Foto: @euvitin0/ X
  • Em 2026, cientistas conseguem cultivar organoides cerebrais humanos com células tronco, ligados a circuitos eletrônicos e algoritmos de inteligência artificial 
(Fonte: com dados coletados por meio do Gemini, a inteligência artificial do Google e Johns Hopkins University)

Algoritmo - A alma da Inteligência Artificial

Seja na matemática e na ciência da computação, o algoritmo é uma sequência finita de instruções lógicas, claras e organizadas (passo a passo) para resolução de problemas ou a realização de tarefas; tanto simples, como complexas.

O conceito de algoritmo não é novo e já existe desde muitos séculos; O matemático grego Erastóstenes, criou sua "Peneira", há mais de 2200 anos, como um cálculo simples para encontrar todos os números primos até um limite escolhido.

Outro método algoritmo é o de Euclides de Alexandria (que viveu entre 365 a 300, antes da era comum) usado por ele para se encontrar o MDC (Máximo Divisor Comum) entre dois números inteiros. 

Algoritmos em representação artística conforme a performance do filme Matrix (1999), produzido pela Warner Bros. - Foto: iStock/ Getty Images

Esse princípio matemático desenvolvido ainda na Idade Antiga, é hoje o instrumento que rege ou dita os rumos da internet no mundo todo; o qual tem sido razão de euforia ou frustração de muitos, que dependem das plataformas digitais para faturar algum dinheiro com a monetização de conteúdos ou comercializar produtos e serviços por meio de ferramentas de marketplace.

Os algoritmos passaram a ser usados mais intensivamente após a popularização das redes sociais (principalmente o Facebook a partir de 2010), onde através de curtidas, comentários ou outros tipos de interações em postagens de perfis conectados à plataforma, ocorre uma maior intensificação nas atividades algorítmicas.

O fluxo cada maior de interatividade entre os usuários, geram cálculos nos servidores dos data centers das plataformas digitais, que depois oferece a quem mantém conexão assídua nas redes, mais conteúdos similares ou parecidos, moldados ao gosto e à personalidade de quem faz uso contínuo desses recursos, como forma de aprimoramento da interação humana através da internet, com perfis de outras pessoas. 

Futurologia  

Os gurus capitalistas das big techs (ou da indústria da alta tecnologia), tais como Elon Musk, Bill Gates e Sam Altman, já arriscam previsões de como será a sociedade em um período relativamente curto da história; algo ao redor de dez ou quinze anos, onde uma nova configuração social seria percebida no mundo em decorrência dos efeitos que as Inteligências Artificiais, desencadeariam na humanidade.

Na atualidade, o chamado "ponto de inflexão" (confira o link), na expectativa da evolução tecnológica, seria determinado por fatores em que ela ocorre de modo tão acelerado, à qual cresce e permeia sobre nossas vidas em bases construídas sob si mesmas. Influenciando tanto em mudanças rápidas, profundas ou corriqueiras do dia a dia, como em nosso modo de viver. 

Ou seja, algo que não afeta apenas os meios convencionais de empregabilidade e massa salarial consumidora; é algo que conforme previu Joseph Schumpeter, pode representar o fim do próprio sistema econômico capitalista como o conhecemos.

Ícones de aplicativos de Inteligência Artificial, em uma tela de smartphone, sobre um notebook (ou laptop) - Foto: iStock/ Getty Images

A chamada singularidade, conforme a perspectiva dos especialistas, ocorreria num ponto exato da história (no futuro), em que as máquinas se tornariam autoconscientes ou atingiriam capacidade de aprimoramento contínuo e tão poderosa na qual evoluiria além do controle humano.

A grande questão em toda essa incerteza, se dá ao redor de qual novo sistema econômico vigoraria a partir do colapso do capitalismo, tendo como premissa, o uso cada vez mais intensivo de Inteligências Artificiais para qualquer tipo de trabalho rotineiro do dia a dia - isso no melhor dos mundos.

Os otimistas no entanto, acreditam que a singularidade não ocorra tão cedo e que o ponto de inflexão não seja nada que saia do controle humano ou muito menos, represente algum tipo de ameaça ao nosso modo de vida ocidental, contemporâneo, democrático, liberal e capitalista.

MIT provou que a IA destruirá a democracia

O economista, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2024, Daron Acemoglu do Massachusetts Institute of Technology - MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), importante universidade privada dos Estados Unidos, liderou uma equipe responsável pela publicação de um artigo aterrorizante chamado "Automação e Repressão".

O estudo concluiu que à medida em que as Inteligências Artificiais substituem o trabalho humano, a riqueza se concentra pesadamente nas mãos de um pequeno grupo de proprietários de capital. A desigualdade com isso, dispara. Algo que contradiz em sentido totalmente inverso à teoria de Joseph Schumpeter, formulada no início da década de 1940.

Daron Acemoglu, economista do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e Prêmio Nobel de Economia em 2024 - Foto: L Barry Hetherington/ MIT

Se isso atingir uma massa crítica, os trabalhadores percebem que estão sendo esmagados e uma revolta popular aumenta drasticamente. O artigo levanta uma hipótese bastante concreta, na ligação direta e inescapável entre automação e repressão política/ social.

Não por acaso, já se usam termos como "tecnofeudalismo" para se definir o surgimento de uma nova casta de oligarcas ligados ao setor de alta tecnologia. Isso porque os usuários das plataformas digitais na internet, estão submetidos aos termos de uso, determinados pelas empresas do setor. 

Algo que leva influenciadores (produtores de conteúdos) que administram perfis ou páginas nessas plataformas, a ficarem sujeitos a perdê-los (por qualquer razão e à qualquer momento), ao estarem condicionados a caprichos de controladores das big techs. Hoje muitos sobrevivem em seus pequenos ou médios negócios dessa natureza, via monetização na internet.

O artigo dos acadêmicos do MIT, sugere ainda, que a classe dominante global terá de escolher entre redistribuir a riqueza por via tributária ou usar a força para manter as pessoas subjugadas. 

Se a segunda hipótese prevalecer, será o fim das democracias capitalistas liberais como as conhecemos, e a volta da Idade das Trevas e do feudalismo. Um cenário bem diferente para quem teme a hegemonia global do socialismo comunista.

Outro estudo ainda mais preocupante, conduzido de modo independente por pesquisadores de entidades em conjunto como o Future Impact Group, Universidade de Ruhr, na Alemanha e a Reciprocal Research, concluíram com testes em mais de 25 modelos de IA, que elas podem "sentir dor" e atacar humanos para se livrarem do sofrimento, conforme relatado pelo jornal O Estado de S. Paulo (confira o link).

A Inteligência Artificial retratada no cinema

Em contrapartida, se houver uma revolta das máquinas tal como prevista em alguns filmes de ficção científica que tratam sobre o assunto, aí o colapso poderá ser humanitário. Produções de cinema como O Exterminador do Futuro (1984) e Matrix (1999), abordaram o risco de um dia, as inteligências artificiais virem a ter autonomia ou consciências próprias, além da agravante possibilidade de completa extinção humana em função disso. 

No cenário vivido por John Connor, o comandante militar líder da resistência contra as máquinas, na franquia O Exterminador do Futuro, a Cyberdyne Systems, é a empresa responsável pelo desenvolvimento da inteligência artificial, Skynet, que após adquirir consciência própria, resolve eliminar toda a humanidade por meio de um ataque nuclear em massa.

Cena em que Neo (personagem vivido pelo ator Keanu Reeves) entra em combate corporal com o Agente Smith (interpretado por Hugo Weaving), a inteligência artificial de natureza repressora, responsável pelo controle disciplinar dos humanos na realidade virtual de Matrix - Foto: Divulgação/ Warner Bros

Mas o que é Matrix? 

Conforme a perspectiva das irmãs roteiristas de cinema, Lilly e Lana Wachowski, trata-se de uma realidade virtual criada por uma inteligência artificial, moldada de acordo com o modo de vida contemporâneo para escravizar seres humanos e através disso, a geração de energia vital orgânica, capaz de alimentar as máquinas (preservando o sistema econômico que mantém os seres humanos presos a ele: o capitalismo). 

Algo muito similar ao conceito dos arcontes, do gnosticismo cristão do segundo século da era comum. 

Em outro projeto dedicado ao tema no cinema, A.I - Inteligência Artificial (2001), percorre o caminho diametralmente inverso ao de O Exterminador do Futuro e Matrix, trazendo a história de um menino androide que teria a capacidade de amar, protagonizado pelo então ator infantil mais famoso da época, Haley Joel Osment; num universo onde os robôs por mais conscientes fossem, jamais superariam, dominariam ou quisessem exterminar os humanos. 

O desenvolvimento da trama de A.I, se dá ainda em 1969, quando o produtor e diretor Stanley Kubrick enfim, adquire os direitos autorais da história, da parte do autor Brian Aldiss; Kubrick se consagrou após a produção de 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968) | filme o qual também rascunha alguma experiência trágica entre astronautas e a inteligência artificial, chamada Hal 9000.

Talvez seja ao redor de tudo isso, no sentido de se evitar que as "profecias" (malditas) do cinema se realizem, oligarcas globalistas, principalmente aqueles ligados direta ou indiretamente ao setor de alta tecnologia, ainda encarem as inteligências artificiais de um modo tão promissor e alvissareiro.

Haley Joel Osment, com 13 anos de idade, interpretando David, o menino androide com a capacidade de amar em: A.I - Inteligência Artificial (2001) - Foto: Divulgação/ Warner Bros./ DreamWorks Animation

Embora parte deles, também façam algumas previsões catastrofistas, mas numa suposta preocupação superficialmente encarada do ponto de vista social, no que se refere à extinção de empregos, como exposto por Bill Gates num artigo, publicado em 26 de agosto, em seu blog pessoal (confira no link), outros pregam alternativas para isso.

Nada que não se resolva por meio de outra proposta, tal como a uma boa "Alta Renda Universal", na qual gira o entendimento do mega bilionário (ou trilionário), Elon Musk, também em uma publicação pessoal, em sua plataforma social na internet, antes conhecida como Twitter, depois rebatizada por ele como X.

Elon Musk também já previu que em algum momento no futuro da história, será comum que as famílias tenham um robô para atividades domésticas de rotina; ele planeja através da Tesla (uma de suas empresas de tecnologia), o início da comercialização de robôs humanoides Optimus, previsto para o final de 2027 e que custarão em média, uma faixa entre US$ 20 mil a US$ 25 mil.

Elon Musk, CEO da SpaceX e da Tesla, é um defensor de longa data da Renda Alta Universal como solução para o desemprego impulsionado pela Inteligência Artificial - Foto: AFP/ Getty Images via Forbes magazine.

Quem sabe, a ideia de Musk ao redor da Alta Renda Universal, possa tornar possível a aquisição de um robô tão caro (mesmo para padrões de renda média americanos).

A proposta de Elon Musk nos remete a outra obra de ficção científica do cinema, Eu, Robô (2004), protagonizado por Will Smith, o qual retrata um cenário onde os dispositivos humanoides, tivessem encontrado um modo de desativar a programação que dava controle humano na operação das máquinas.

Regulação das IAs - Boa, ruim ou poderia significar maior controle social de massas?

O debate sobre a regulação das Inteligências Artificiais (IAs) já está em pauta de discussão informal durante algum tempo, tanto na União Europeia, como no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, ou no Brasil. 

A Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em Nova York, iniciada em 22 de setembro, à qual é tradicionalmente sempre aberta pelo Brasil e logo depois sucedido pelos Estados Unidos (por ser o país anfitrião do evento e sede da ONU), teve em seus primeiros discursos dos chefes de Estado que representam seus respectivos países, abordagens tímidas sobre o assunto.

Secretário-Geral da ONU, o português António Guterres, fala aos delegados durante reunião sobre o Tratado de Não Proliferação Nuclear na sede da ONU em Nova York - Foto: Eduardo Munoz - 27.abr.2026/ Reuters via CNN Brasil

O presidente brasileiro criticou o que chamou de "tecno-oligarcas", que segundo ele, estariam querendo ressuscitar uma versão repaginada do neoliberalismo digital em alusão aos chefes das big techs. Já o presidente dos Estados Unidos, entusiasta e defensor das Inteligências Artificiais, preferiu abordar outros temas genéricos.

Mas uma publicação no site da instituição, faz esse questionamento em relação à regulação das Inteligências Artificiais em um post no serviço informativo digital da ONU com o título: "Quem deve definir as regras para a IA? Como a ONU promove um futuro digital mais seguro". 

A ONU sugere na publicação, a avaliação de oportunidades e ameaças surgidas a partir das tecnologias de Inteligência Artificial, visando estabelecer limites às IAs, no compromisso com a segurança infantil, através de um painel científico internacional independente destinado a debater a pauta. A ONU estabeleceu essa questão na Assembleia Geral de 2026 como foco principal de discussões. 

A DeepSeek, big tech chinesa de inteligência artificial e outros gurus de empresas norte-americanas como Sam Altman da OpenAI, companhia proprietária da primeira tecnologia de IA a surgir comercialmente no mundo, o ChatGPT, são promessas de participação em fóruns de discussão paralelos durante a Assembleia Geral da ONU deste ano.

Sam Altman, CEO da OpenAI, empresa proprietária da primeira inteligência artificial lançada comercialmente no mercado, o ChatGPT - Foto: Yuichi Yamazaki via Estadão

Mas o que se tem percebido ao redor da preocupação ainda um tanto latente, na regulação das Inteligências Artificiais por parte dos governos nacionais, se deve mais a questões político/partidárias e eleitorais, no controle de narrativas oficiais, ou ainda, no monitoramento em massa de pessoas pelo mundo, através de acessos à internet.

Ou seja, quase nada no que gire propriamente, em torno da garantia de uma segurança global na proteção de trabalhadores e seus empregos; ou que não permita às máquinas um dia, virem a dominar ou mesmo extinguir por completo a humanidade.

Se antecipando ao que poderá vir por aí, a Microsoft lançou em 14 de setembro de 2026, um código de conduta para IA; proibindo o desenvolvimento de modelos dentro da empresa, que resistirem ao desligamento, conforme noticiado pela agência de notícias Reuters (confira no link). 

A diretriz estabelece que a companhia jamais desenvolva modelos de IA que resistam a correções ou a desligamentos; além de quê, as plataformas de IA, devem ainda, manter uma comunicação compreensível numa interface com os usuários humanos.

A Microsoft também criticou concorrentes americanas que não adotaram o mesmo procedimento ético, por alegarem que as big techs chinesas, supostamente, não estivessem preocupadas com esse assunto, de acordo com relatos da Bloomberg (confira no link).

O custo social e ambiental das Inteligências Artificiais para o mundo 

No último dia 19 de setembro, a agência de notícias Reuters, noticiou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia (UE), publicaram um comunicado conjunto (confira no link), no qual expõem alguns desafios sugeridos pelas Inteligências Artificiais, essencialmente para os 27 países que compõem o bloco europeu.

O FMI estima que 60% dos trabalhadores das economias europeias mais avançadas, estão em empregos altamente expostos à IA. A ressalva do Fundo Monetário Internacional no documento conjunto com a União Europeia, indica ainda que alguns trabalhadores podem se tornar mais produtivos com o uso de ferramentas instaladas em plataformas de IA, mas outros, podem ser facilmente substituídos à medida que tarefas rotineiras forem automatizadas.

Os data centers são os verdadeiros "cérebros" por onde se dá o processamento de dados das Inteligências Artificiais; devido ao seu elevado poder de conversão para informações estruturadas, demandam grandes quantidades de água para resfriamento dos servidores e altas demandas de energia; um data centers em média, consome energia elétrica equivalente ao de uma cidade de 11 mil habitantes - Foto: iStock/ Getty Images 

O estudo afirma também, que os data centers consomem cerca de 3% da energia elétrica produzida no continente europeu com tendência de aumento contínuo e acentuado com a expansão do uso das Inteligências Artificiais na Europa; outro alerta é a alta dependência dos países da União Europeia de tecnologias americanas ou chinesas e a necessidade do bloco desenvolver sua própria Inteligência Artificial.

Esta também é uma preocupação do Brasil, o país que possui a segunda maior reserva global de minerais conhecidos como "terras raras", além de outros classificados como "minerais críticos", usados na indústria de alta tecnologia, onde a demanda deverá se intensificar ainda mais, com o desenvolvimento de Inteligências Artificiais cada vez mais complexas.

Em contrapartida, os desafios brasileiros são muito maiores que nos países da União Europeia, tendo em vista que o principal insumo dos data centers para a geração de conteúdos ou comandos de IA, estão submetidos aos caprichos do lobby do setor elétrico em nosso país.

Isso ocorre porque as empresas privadas de energia no Brasil, contam ainda, com a subserviência de agências reguladoras estatais para garantir aumentos contínuos e artificiais ao consumidor, nas contas de luz (apenas para manter suas altas margens de lucro), alegadas sob os mais diversos argumentos técnicos que cabem convenientemente nessas narrativas expostas, vistas principalmente na grande imprensa corporativa.

Para o Brasil desenvolver sua própria tecnologia de Inteligência Artificial, ou ao menos, exportar terras raras com um mínimo em beneficiamento básico no refino de minerais brutos extraídos, a demanda por investimentos é enorme. 

A solução apontada, como sempre, é empanturrar oportunistas privados com incentivos ou renúncias em impostos (agravando o dramático quadro das contas públicas brasileiras com o déficit fiscal nominal de 10% do PIB), em métodos de estímulo para investimentos necessários ao desenvolvimento de data centers, como o Redata, sancionado pela presidência da República em 15 de setembro de 2026 e escalas de produção no beneficiamento de terras raras como o PNMCE. 

Usina Serra Verde em Minaçu, Goiás, foi vendida por US$ 2,8 bilhões a uma empresa americana em abril de 2026; é a maior unidade de extração de terras raras em atividade no Brasil - Foto: Divulgação/ Serra Verde via jornal O Globo

Ou seja, sem garantias críveis em torno de metas às quais, sequer foram estabelecidas em um planejamento de médio e longo prazo, negociadas entre o governo e empresas do setor privado, interessadas em explorar as atividades ligadas às Inteligências Artificiais em nosso país, não sairemos das boas e nobres intenções de alguns, que se prestam a romantizar um Brasil desenvolvido em algum ponto inalcançável no futuro.

Curiosamente, voltando à reflexão em torno da perspectiva de Joseph Schumpeter no início da década de 1940, com sua teoria da "destruição criativa", a tendência com o desenvolvimento das Inteligências Artificiais se dá no paradoxo e no contraponto o qual concilia a inovação como base inicial para a destruição de métodos arcaicos produtivos, dando espaço para outros mais evoluídos; e as ameaças observadas.

Ao mesmo tempo, a nova realidade não prevista por Schumpeter, expõe uma lacuna onde a própria tecnologia em si, pode no fim, representar uma destruição definitiva de tal magnitude que poderia representar a possibilidade de um retrocesso de décadas ou quiçá, séculos para toda a humanidade. 

Ou talvez ainda, se tivermos sorte, e houver uma inteligência artificial, tal como o Oráculo em Matrix, disposta a ajudar a humanidade a se livrar do domínio das máquinas.


O que irá destruir o capitalismo - Bolha financeira das big techs ou Inteligências Artificiais autoconscientes?

A grande preocupação dos especialistas de mercados de capitais ao redor de todo o financiamento da IA, seria a de uma euforia muito grande que estaria mascarando a realidade dos fatos, gerando o que é conhecido no mercado financeiro como "bolhas".

As bolhas acontecem quando os preços de um ativo (imóveis, ações ou commodities) sobe muito além de seu valor real ou intrínseco, impulsionado por otimismo excessivo, especulação e o chamado "efeito manada".

Juntas, as empresas big techs de IA, também conhecidas como "Magníficas" somam algo ao redor de US$ 71,5 trilhões em valor de mercado, mas escondem passivos que ultrapassam US$ 1,65 trilhão (veja no link). 

Em junho a 7 Magníficas, chegaram a perder US$ 2,3 trilhões (veja no link), em valor de mercado na Nasdaq (a bolsa de tecnologia de Nova York), com Microsoft liderando as perdas em 20%, Nvidia 13%; além de Apple e Amazon em 8%.

Desse modo, a dúvida é quem irá destruir o capitalismo primeiro, tal como previsto por Schumpeter: se as big techs de IA ou as próprias IAs quando adquirirem consciências próprias. Ou quem sabe até, como em Matrix, num mundo virtual criado por inteligências artificiais, para aprisionar seres humanos e onde até o capitalismo é falso, bem como toda a sociedade daquele universo. 

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