Pular para o conteúdo principal

O Produto Interno Bruto e um projeto nacional de desenvolvimento

Na última sexta-feira de maio (29), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgou o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2026. De acordo com os números divulgados pelo órgão federal, o qual mede indicadores econômicos, demográficos e sociais do Brasil, houve um crescimento da economia, de 1,1% em relação ao quarto trimestre de 2025. O resultado foi considerado satisfatório por economistas.

No acumulado de quatro trimestres, o crescimento da economia brasileira está em 2% ao ano. O Brasil assim, volta ao grupo das dez maiores economias do mundo, ultrapassando o Canadá, mas ainda atrás da Rússia, com um valor nominal de US$ 2,63 trilhões ou de aproximadamente R$ 13,31 trilhões.

O Brasil precisa investir mais em infraestrutura no interior de outras regiões menos desenvolvidas, para desconcentrar a produção industrial de regiões saturadas e que já não oferecem vantagens em produtividade, tal como a Região Sudeste, em especial, o estado de São Paulo - Foto: iStock.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), estima que o crescimento do PIB brasileiro em 2026, alcance um percentual de 1,9 pontos, ante 1,6% inicialmente previsto pela entidade; já para 2027, o FMI, projeta um ritmo de crescimento um pouco maior para a economia do Brasil, ao redor de 2%; fazendo com o que o país, volte para a nona colocação entre os maiores produtos nacionais do globo. 

Ainda para 2027, o FMI estima que o Brasil venha a superar a Rússia e em 2031, ultrapassar o PIB italiano, reconquistando a oitava posição, ocupada em 2017; permanecendo atrás da França até a virada da próxima década. 

Brasil: um país rico, pobre ou "economia emergente"?

Grande parte dos economistas, concorda que medir a riqueza de um país apenas por seu PIB nominal, não é adequado; sendo preciso muito mais que observar apenas o ritmo de crescimento da economia, de um modo geral, acumulado mediante o desempenho de todas as atividades econômicas de um país: seja a partir da indústria, agropecuária e dos serviços.

Todos são unânimes que quanto mais elaborada for a complexidade produtiva de uma economia -com adoção de altas tecnologias nos processos fabris ou de prestação de serviços- mais uma sociedade tende a se enriquecer ou se caracterizar como rica. Algo que no caso do Brasil, ainda não é bem uma realidade.

Com o resultado do PIB do 1º trimestre, divulgado
pelo IBGE, o Brasil voltou a estar entre as dez
maiores economias do mundo - Foto: Infográfico/
Arte/ O Globo.

Para avaliar se um país é rico ou pobre, não basta olhar apenas para o dinheiro que ele produz. É essencial considerar como essa riqueza é distribuída e como ela se traduz em qualidade de vida -saúde, educação, segurança e bem-estar. 

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é hoje o indicador mais completo para essa análise, pois integra economia e condições sociais.

A economia brasileira se enriqueceu um pouco mais, desde o tombo provocado pela pandemia (em 2020 com resultado de 3,3% em crescimento negativo), porém, isso não quer dizer que o Brasil tenha deixado de ser um país pobre. 

O PIB per capita brasileiro ainda é considerado muito baixo, quando se divide do PIB nominal descrito acima, de US$ 2,63 trilhões, pelo total da população nacional, que é de 213,42 milhões de pessoas. 

O PIB per capita brasileiro é considerado baixo para o tamanho da nossa economia em proporção ao seu número de habitantes, pois está em cerca de US$ 10,68 mil. 

Em função disso, mesmo tendo uma economia que superou o PIB canadense e de acordo com a projeções do FMI, pode ultrapassar a Itália até 2031, o Brasil dificilmente deixará de ser um país considerado pobre, em função do PIB per capita, ainda estar abaixo de US$ 25 mil por habitante.

O fator produtividade

O Produto Interno Bruto (PIB) per capita segue em 2026, a trajetória de crescimento dos últimos anos, mas o avanço continua limitado devido a baixa produtividade da economia, conforme aponta o jornal Valor Econômico, na edição deste dia 1º de junho. 

Ainda de acordo com a publicação, cálculos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontam um PIB per capita em torno de R$ 60,52 mil (que convertido pelo câmbio atual, em torno de R$ 5,05 por dólar), seria de aproximadamente, US$ 11,98 mil por habitante. 

Embora tenha havido crescimento, o resultado do primeiro trimestre divulgado pelo IBGE, aponta a segunda desaceleração seguida do PIB per capita brasileiro; que foi de 3% em 2024 e de 1,8% em 2025. Com base nesses dados, a pesquisadora Silvia Matos do FGV - Ibre, projetou o resultado do PIB per capita do Brasil para este ano.

Silvia entende que o resultado de 2026 deverá ser parecido com o de 2025, já que o Brasil está perdendo o que os economistas chamam de "bônus demográfico", devido ao ritmo menor de nascimentos, frente ao envelhecimento da população, o que faz o crescimento do PIB per capita brasileiro, depender cada vez mais da produtividade, que é considerada muito baixa para os padrões internacionais.

A baixa taxa de produtividade do trabalho no Brasil, é apontada por especialistas como o principal entrave para níveis de crescimento econômico robustos e sustentáveis no médio e no longo prazos, capazes de reduzir sensivelmente de modo gradual (sem pressões inflacionárias), os níveis de pobreza da população como um todo - Foto: Guilherme Pupo/ Folhapress.

A pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, compreende que a produtividade está mais relacionada às pessoas e ao ambiente. E segundo ela, o Brasil é ruim, em ambos. Para Silvia Matos, o Brasil é ruim na qualificação das pessoas e as universidades são desconectadas da realidade. 

Além disso, Silvia considera que temos problemas com incentivos ou benefícios concedidos a empresas que criam distorções em vários setores.

"O padrão de crescimento é intensivo na mão de obra e não na produtividade", diz Silvia Matos.

Para ela, os elevados níveis na taxa de emprego, se fazem como preocupantes ao redor dessa dinâmica observada em suas pesquisas. Na semana anterior a esta publicação do Valor Econômico citada, o IBGE havia anunciado que o desemprego no Brasil, estava em 5,8% da população economicamente ativa.

Silvia Matos, pesquisadora sênior da FGV - Ibre -
Foto: Leo Pinheiro/ Valor Econômico.

"O Brasil tem pouca produtividade e muito emprego. Muito limão para pouca limonada; se aumentar as taxas de crescimento do PIB, não terá onde encontrar mão de obra; terá de pagar mais e aí gera inflação", conclui Silvia.

Projeto nacional de desenvolvimento

O grande drama brasileiro ao redor deste preocupante cenário, se dá na ausência de um plano cartesiano de desenvolvimento, que contemple essencialmente, o crescimento econômico, puxado pelo crescimento da produtividade, onde através deste, haja crescimento de salários, pois é somente assim, que uma economia se desenvolve de modo sustentável; isto é, sem inflação.

Para isso, é preciso haver todo um preparo fiscal, orçamentário e principalmente institucional; e o modelo de crescimento brasileiro é insustentável em todos esses fatores elencados. 

Com um déficit nominal na casa de 9,41% do PIB, que gera uma dívida pública que compromete 80,4% do Produto Interno Bruto e geram outros 8,4% do PIB em gastos só com juros para custeio da dívida soberana nacional do Brasil, dificilmente se faz possível, elaborar um projeto de desenvolvimento sustentável do ponto de vista fiscal. 

Em 2025, o país gastou cerca de R$ 1,08 trilhão só com juros da dívida pública, que basicamente ocorre devido ao excesso de renúncias fiscais concedidas pelo governo, gerando o buraco entre as receitas com impostos e os gastos. 

Medidas essas, alegadas para se evitar a "desindustrialização brasileira", que na verdade afetam em sua maior medida, o estado já mais industrializado do país, São Paulo, por ter se tornado extremamente caro para atividades industriais, devido a fatores internos e locais.

Nesse sentido, antes é preciso uma norma fiscal que contemple zerar o déficit nominal, para tornar possível a recompra de títulos públicos emitidos no mercado; e através disso, reduzir sensivelmente o nível de endividamento nacional. 

Gerar estoques de poupança pública (do Tesouro Nacional), capazes de financiar grandes projetos de infraestrutura onde o setor privado não demonstra interesse de atuar, por demandar altos investimentos com retornos de longo prazos, reduzindo a necessidade de emissões de títulos públicos para propiciar meios sustentáveis de desenvolvimento em áreas de alta complexidade tecnológica e industrial, é um dos maiores desafios do Brasil na atualidade - Foto: iStock.

O governo assim, reduzirá ainda, o comprometimento do nosso baixo estoque de poupança doméstica, que está em 15,5% do PIB (quando deveríamos ter o dobro disso, para investimentos em setores produtivos da economia).

Sendo possível então, baixar a taxa básica de juros Selic, determinada pelo Banco Central, para que volte a patamares abaixo de 5% ao ano (hoje em 14,5% anuais), reduzindo custos financeiros ou de capitalização das empresas como um todo, melhorando o ambiente de negócios no país.

Através disso, propiciando a formação de alguma poupança pública, direcionada a investimentos em infraestrutura, nas regiões menos desenvolvidas, no sentido de direcionar empreendimentos industriais de alta complexidade para esses locais, gerando elevadas margens de crescimento na produtividade nacional e através disso, da economia e principalmente, do PIB per capita, nos tirando do atraso social.

Focar ainda, em uma política de incentivos, ao redor da indústria de alta tecnologia, na modernização dos processos fabris e construtivos da engenharia civil. 

E por fim, interiorizar empreendimentos que deem ao Brasil, autonomia produtiva, tornando possível exportar, o que hoje, nós ainda importamos entre insumos de produção, tais como por exemplo, combustíveis.

É imperioso desconcentrar a infraestrutura produtiva da Região Sudeste do país, especialmente de São Paulo - que como já mencionado, tem se tornado cada vez mais caro para se produzir, demandando incentivos federais para evitar a desindustrialização do estado; redirecionando empreendimentos industriais para o interior do Brasil, evitando que empresas inteiras, migrem para países vizinhos.

Comentários