É possível estudar e compreender o espírito num mundo moldado pelo materialismo? A resposta está muito mais nas interpretações de algo volátil, para uma linguagem física, palpável ou palatável aos sentidos do corpo e não tanto, às sensações vividas, ou melhor, sentidas pelo ser humano.
O que os pais da psicanálise, entenderam que poderiam extrair do "estudo do espírito" humano, a partir de uma visão estritamente científica ou quase nada relacionada a questões místicas ou sobrenaturais?
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| Escultura de Psique e Eros no Museu do Louvre em Paris - Foto: Reprodução. |
Psique ou psiquê, se refere em sua origem etimológica do termo, justamente àquilo que se relaciona a "alma" ou "espírito"; embora como já abordado, nada tenha a ver com a definição entendida de modo espiritualista ou religioso (pelo menos no prisma da ciência analítica), mas da consciência, enquanto memória e personalidade responsável pela interpretação dos estímulos externos que resulta na reação ou nas formas de comportamento de uma pessoa.
Desse modo, a compreensão dos sentimentos das pessoas como resultado de gatilhos emocionais providos de estímulos externos, passou a ser o foco de estudo da psique (alma ou espírito) humano, de onde se originou o termo "psicanálise", que por sua vez, se desdobrou em dois outros ramos de abordagem: a psicologia e a psiquiatria.
Originário da mitologia grega, Psiquê, era conhecida como "deusa da alma" e sua representação iconográfica trata-se de uma figura humana de aspectos femininos com asas de borboleta. Portanto, o termo foi originado na Grécia, aproveitado pelos filósofos gregos, especialmente Platão e Aristóteles, que inicialmente consideravam relacionados ao intelecto, emoção e o desejo.
Especificamente, Platão considerava psique, em sua faceta de "alma" ou "espírito", enquanto Aristóteles, mais sobre suas perspectivas físicas em relação ao "corpo" ou e sua "essência vital".
É nesse segundo entendimento aristotélico, que os pais da psicanálise, especialmente Sigmund Freud e Carl Jung, explanam sobre a psique.
Jung aborda a psique de modo até mais "espiritual", enquanto Freud, de um modo mais lógico, do ponto de vista racional no estudo das personalidades humanas, embora não tenha usado o termo de modo mais claro.
Carl Gustav Jung, entendeu a psique como o conjunto de processos conscientes e inconscientes presentes na mente humana. E as subdividiu em consciente individual e coletivo, fazendo da mesma forma com o inconsciente individual e coletivo; já Freud, equacionou a psique em três variáveis: consciente, inconsciente e pré-consciente.
Ambos, através dessas constatações, aplicaram o conceito de "ego" (ou "eu") para melhor compreensão da psique e suas distintas variações de personalidade; também é comum, a associação de ego e psique sob um mesmo prisma de estudo. Portanto, é possível afirmar que ego, psique, personalidade, alma e espírito, sejam a mesma linha de abordagem, de um tema tão complexo, quanto a mente humana.
Psicanálise Vs espiritualidade
É numa perspectiva um pouco semelhante, que a espiritualidade também aborda o ego, embora dentro de um conceito de "falso eu" ou "eu inferior", moldado segundo as características sociais, culturais e religiosas de cada indivíduo; enquanto a essência oposta a esse conceito, se ancora na ideia de "eu superior", que está totalmente descolado do ego, através do qual, manifesta sua essência pura e verdadeira do espírito.
Em contrapartida, a psicanálise entende o ego ou a psique, apenas no contexto subjetivo do estudo das distintas personalidades, dentro de uma delimitação lógica e racional embasadas na vida orgânica materialista; enfim meramente científica.
Enquanto a espiritualidade, faz uma abordagem das respectivas personalidades em uma amplitude maior, no que se entende como imortalidade do espírito, que associados à ideia de encarnação e reencarnações, defende ainda, o embasamento ao redor dos chamados "registros akáshicos".
As terapias psicanalíticas de regressão, por meio de práticas hipnóticas, que visam identificar traumas de infância nos pacientes que expliquem reações inapropriadas providas de choques emocionais inconscientes, no contexto espiritualista, através dos registros akáshicos, visa esse mesmo diagnóstico junto a psique, porém de memórias relacionadas a vidas anteriores.
Na concepção espiritualista que está relacionada ao "falso eu", se expressa em uma boa parcela de filosofias espiritualistas orientais como o budismo e o taoísmo, na necessidade de libertação espiritual; através da superação de vícios do ego (vaidade, insegurança, medo, culpa, soberba, arrogância...), no qual uma pessoa se aprisiona ao se apegar em demasia a essas variáveis emocionais, enquanto ignora aspectos internos do próprio "eu superior" ou do espírito - também descritas como "centelha divina".
A cura espiritual, conforme orientado por essas filosofias mencionadas acima, é possível ser alcançada através de práticas espiritualistas como meditação, ioga e tai chi chuan (que é considerado um tipo de meditação em movimento); o estímulo ao desapego, seja emocional ou materialista, é incisivamente recomendado; já as práticas religiosas institucionais que preguem rigores excessivos que causem outros tipos de apego e sofrimento, são desaconselhados.
E se o ego, na psicanálise, tanto freudiana quanto junguiana, está mais voltado para uma visão lógica e racional sobre a percepção das emoções humanas em contextos científicos, na concepção espiritualista, é portanto, como que uma capa ou envólucro da psique, moldado segundo a cultura, idioma, nacionalidade, classe social, âmbito familiar e de trabalho, influenciando a personalidade, na qual se aprisiona o indivíduo, que por sua vez, se esquece de sua própria essência espiritual.
Enfim, a pisque pode ser interpretada como a face mais pura do espírito, que se livre do "falso eu" interpretada pelo espiritualismo como ego, revela a divindade contida em cada ser humano de carne e osso; sendo a descoberta subjetiva e abstraída disso, de modo individual de cada pessoa viva neste plano físico de matéria, imbuída ao redor de tal busca, se dá a ascensão espiritual - capaz de romper ciclos cármicos de vida e morte, ou de encarnação e reencarnação; alegadas na suposta necessidade de evolução espiritual de uma consciência cósmica.


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