O ano de 325 da era comum, marca um dos acontecimentos mais incisivos do cristianismo, após aqueles que seriam sua própria razão de existir, através do martírio e ressureição de sua principal personalidade, Jesus, da cidade de Nazaré, hoje parte do território de Israel. Jesus por isso, adotou o título deífico de "Cristo".
Surge daí, o cristianismo, uma das correntes filosóficas espiritualistas mais impactantes de nossa história. A partir disso, os fieis que professam a fé em Jesus Cristo, passaram a ser conhecidos como "cristãos".
Por ter nascido e crescido na cultura judaica, a figura de Jesus se faz ainda, como ponte de ligação entre judeus, cristãos e muçulmanos, as três maiores religiões monoteístas de origem abraâmica, do mundo; isto é, que tiveram origem no patriarcado de Abraão, cuja história, é narrada no livro do Gênesis da Bíblia cristã, e na Torá judaica.
Convocada pelo imperador romano, Constantino, a cidade de Niceia, que adotou esse nome até a idade Média, atualmente é conhecida pelo nome de Iznik, e faz parte do território turco, foi palco de um dos eventos mais importantes do cristianismo; evento este, o qual dividiria a história cristã entre, "Igreja Primitiva" e "Igreja de Rito Romano"; dando início ao surgimento formal da Igreja Católica.
Após a Reforma Protestante do Século XVI, tentou-se evidenciar a ideia de restauração da "Igreja Primitiva", dado ao rompimento com o rito católico, embora boa parte do que foi definido no cânone niceno, ainda tivesse sido preservado, e a essência mística dos ensinamentos considerados mais ameaçadores ao Império Romano, continuassem ignorados, tais como os conceitos de reencarnação, autoiluminação ou ascensão espiritual, difundidos na Gnose; ensinamentos que sugeriam a desnecessidade de sacerdotes intermediários entre Deus e os fiéis.
Iznik, hoje pode parecer apenas um lugarejo qualquer, de apenas 45 mil habitantes, na atual Turquia, distante há apenas duas horas de Istambul (antes Constantinopla e também antiga capital turca); ou há 382 quilômetros, da atual cidade sede de governo do país, Ancara.
A cidade porém, carrega em sua importância histórica, aquilo que se fez razão para a primeira viagem oficial do papa Leão XIV, culminando com as celebrações de 1700 anos do Concílio de Niceia.
O jubileu quase passou despercebido pela própria Igreja, talvez, muito em função da troca de comando papal, devido ao falecimento de Jorge Bergoglio e a eleição de Robert Prevost para dirigir a Santa Sé. Isso porque o Concílio de Niceia, aconteceu entre 20 de maio e 25 de julho de 325, e a entronização de Leão XIV, ter ocorrido em 18 de maio de 2025.
Por isso, devido ao período necessário de adaptação do novo papa aos serviços do governo da Igreja, fez com que Leão XIV, só viesse a visitar Iznik, no final de novembro; embora a importância do ocorrido, tenha sido resumida pela imprensa, somente pelo fato de o papa ter visitado uma mesquita em Istambul; ou sobre especulações, de que ele teria (ou não), rezado na localidade; além de atender ao pedido de que tirasse os sapatos, para que pudesse entrar no templo muçulmano.
Nesses 1700 anos que definiu o tipo de cristianismo autorizado a ser professado pelo Império Romano, o que vigora nas reflexões atuais sobre aquele acontecimento, se dá mais sobre as razões que levaram um imperador, que nem havia se dado ao trabalho de se converter à nova religião, determinar o que era sagrado, canônico ou aceito como verdade cristã, de outras correntes filosóficas que a partir de Niceia, passaram a ser vistas como hereges ou apócrifas.
Constantino, que inicialmente se tornou soberano do Império Romano do Ocidente, publicou o famoso Edito de Milão, que concedeu liberdade religiosa aos cristãos, após as ultimas e mais severas perseguições sofridas, sob os governos de Décio e Diocleciano entre 249 e 305, ano do mencionado decreto.
Ao reunificar o império, em 306 e vencer Maxêncio em disputa pela consolidação de seu reinado, na famosa Batalha da Ponte Mílvia em 312, Constantino se vê cada vez mais certo de sua vocação religiosa, ou à caminho de sua conversão ao cristianismo.
De acordo com uma lenda sobre esse acontecimento, Constantino teria tido uma visão, em que uma voz lhe dizia ao se referir à imagem de uma cruz resplandecente no céu, a seguinte mensagem: "Com este sinal, vencerás".
Contudo, a conversão do imperador, dando personalidade ao que se conhece hoje como cristianismo, principalmente com relação à Igreja Católica, teria se dado de modo gradual e se consolidou mesmo, em seu leito de morte.
Helena, mãe do imperador Constantino (mais tarde canonizada por aclamação popular e pela tradição, com o título sacro de "Santa Helena", logo após sua morte em 329), já era convertida ao cristianismo bem antes que o filho, e chegou a patrocinar as primeiras incursões exploratórias à Terra Santa, onde teria reunido relíquias da crucificação de Cristo, muito antes das Cruzadas, na Idade Média.
A conversão de uma expressiva parcela de soldados romanos ao cristianismo, também teria sido outro forte fator que impulsionou Constantino a inicialmente aceitar a nova religião, e mais tarde, seu desejo de reuni-la sob seu protetorado. O caso mais expressivo foi o de Sebastião de Narbona (França), que após ser martirizado pelo imperador Diocleciano em Roma, no ano 288, foi aclamado "São Sebastião".
O Concílio de Niceia assim, é visto por estudiosos do assunto, como ato meramente político; no qual prevaleceu a adoção de termos de aceitação do regime de governo romano, em relação à doutrina, no que melhor atendia a conveniências pessoais de um imperador, o qual havia acabado de reunificar o território.
Isso porque cerca de 22 anos antes, o império foi dividido em Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, e Império Romano do Oriente, cuja capital era Bizâncio (mais tarde Constantinopla - hoje Istambul) - razão pela qual, também ficou conhecido como "Império Bizantino", durante toda a Idade Média - Constantino resolve também, transferir a capital de Roma para Bizâncio, e através disso, se esquivar do paganismo predominante na antiga sede de governo.
Espiritualidade Vs religiosidade
Uma das principais causas para a perseguição do Estado Romano contra os cristãos até o início do quarto século, girava ao redor do fato de que a figura central do cristianismo, Jesus Cristo, entrar em choque com a do imperador. Para o império, era como se essa visão fosse de algum modo, um tipo de afronta a autoridade de seu líder máximo.
Com o Edito de Milão, decretado por Constantino em 305, os líderes cristãos, de pronto, reconheceram a autoridade do imperador; contudo, as divisões internas entre os bispos das igrejas, sobre importantes pontos dogmáticos do cristianismo, deixavam o chefe de Estado romano inquieto, pois seu desejo era criar um cânon único, e usa-lo como modo de reafirmação de sua autoridade, através da nova religião.
Cerca de 1800 líderes religiosos foram reunidos em Niceia, devido às facilidades de acesso, no verão do ano 325, tendo como principal questão, a ser definida em torno da ideia de que Jesus Cristo era Deus (ou não); filho de Deus e parte d'Ele; eterno como Deus; ou apenas alguém comum (que como aqueles acusados de "heresia" afirmavam: um ser que se iluminou e descobriu sua natureza divina).
Na ocasião haviam três grandes líderes cristãos que defendiam pontos de vista antagônicos; sendo dois deles, o patriarca Alexandre e o arcebispo Atanásio que divergiam de Ário, o presbítero; todos eram da cidade de Alexandria, no Egito, e o que parecia uma questão teológica localizada, na visão do imperador romano, poderia estar influenciando fiéis pelo mundo inteiro, comprometendo a unidade da fé cristã.
Cerca de 42 anos depois do Concílio de Niceia, o próprio Atanásio de Alexandria, baniu definitivamente todos os códices gnósticos que contrariavam as definições canônicas dos 27 livros aceitos no Novo Testamento da Bíblia, considerando-os, hereges.
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Ário, de Alexandria, ficou historicamente conhecido, como "heresiarca", após o Concílio de Niceia, por discordar da natureza divina de Jesus Cristo - Foto: Wikimedia Commons. |
Outra personalidade importante que participou do Concílio de Niceia, foi Nicolau de Mira; mais tarde canonizado pela tradição cristã como "São Nicolau" e que deu origem à figura mítica natalina do Papai Noel. Um relato apócrifo aponta ainda, que Nicolau de Mira, teria desferido um bofetão contra Ário, em um dos acalorados debates em Niceia.
Tecnicamente, o Concílio foi um modo de ratificar ou legitimar uma decisão já tomada por Constantino, em reconhecer Jesus como Deus e ao mesmo tempo, filho de Deus. Após o Concílio de Niceia, o chamado arianismo (movimento pelo qual ficou conhecido os partidários de Ário), foi considerado herege e banido do cânon cristão; Ário e seus seguidores, foram exilados para a Ilíria, uma localidade na região dos Balcãs, no que hoje se conhece por Leste Europeu.
A outra grande pauta definida em Niceia, se deu com a fixação da data da Páscoa, como celebração máxima da vitória de Cristo sobre a morte, por meio de sua ressurreição. Ficou estabelecido que a Páscoa seria celebrada sempre em um domingo, após a primeira lua cheia do equinócio de 21 de março; que resultou numa data móvel entre os dias 22 de março e 25 de abril.
A definição para a ocorrência da Páscoa, especificamente em um domingo, se deve ao fato de antes, ter sido o dia consagrado pela tradição pagã, como "dia do sol" (ou dedicado ao "deus sol"); sendo assim definido pelo próprio imperador Constantino em 321 (quatro anos antes do Concílio de Niceia) como o dia semanal de descanso do cristianismo, para se diferenciar do sábado judaico.
Já o 25 de dezembro como data do Natal, também está relacionado a essa mesma razão: por se tratar de uma festa dedicada ao "deus sol" e a associação da figura máxima do cristianismo, com a divindade pagã. Contudo, a data do Natal foi definida em alusão ao nascimento de Cristo, anos depois do Concílio de Niceia, em 331 pelo papa Júlio I, ainda sob o governo de Constantino.
O imperador esperava que por meio do Concílio de Niceia, fosse possível sanar de modo definitivo, qualquer dúvida com relação à pauta teológica sobre a origem divina de Jesus Cristo. Algo porém, que ao longo dos anos seguintes, não se mostrara como um assunto totalmente superado pela cristandade.
Outras seitas cristãs, além do arianismo, rejeitavam o cânon definido por Niceia; sendo preciso por isso, a realização de novos concílios posteriores, para legitimar a perseguição a esses grupos independentes e sufoca-los, para que assim, a doutrina oficial fosse hegemônica.
Dentre essas seitas cristãs, certamente a mais ameaçadora, era o gnostismo; embora já tivesse sido como doutrina rejeitada no Sínodo de Roma no ano 200 e ter essa posição reafirmada no Concílio de Niceia, 125 anos depois, passou a ser cada vez mais perseguida pelo cristianismo oficial chancelado por Roma (ou Bizâncio, sob a égide de Constantino, de modo mais específico),
Outros concílios cristãos (antes e depois de Niceia)
Apesar de o Concílio de Niceia ser considerado o primeiro, dentre os concílios ecumênicos, o Concílio de Jerusalém, realizado no ano 50 da era comum, reuniu os apóstolos que conviveram com o próprio Jesus de Nazaré, e foi ainda mais decisivo, na relação de importância ao que seria considerado o concílio seguinte em 325.
Até então, o cristianismo se tratava mais de uma seita judaica, que propriamente uma religião de cunho universalista, sendo esta, a grande questão que se dava também, ao redor da exigência da circuncisão para homens, como ato formal de conversão, nos moldes judaicos; se o cristianismo seria restrito ao povo judeu e a Israel; ou se outros povos, na ocasião, chamados "gentios", seriam aceitos, tendo em vista as primeiras conversões promovidas pelo apóstolo Paulo.
O concílio seguinte a Niceia, realizado em Constantinopla, no ano 381, deu origem ao credo niceno-constantinopolitano, rezado nas missas mais solenes; após este, foi realizado o Concílio de Cartago em 397, o qual definiu os 27 livros contidos no Novo Testamento (confirmando o decreto de Atanásio de Alexandria de 30 anos antes).
Já o Concílio de Calcedônia, em 451, definiu a natureza espiritual e humana de Cristo (basicamente, uma revisão do que havia sido definido em Niceia); e o Concílio de Trento, realizado entre os anos de 1545 e 1563, reafirmou os dogmas católicos em resposta à Reforma Protestante.
O Concílios Vaticano I e Vaticano II
O Vaticano Primeiro, foi realizado entre 1869 e 1870, ocorrendo em um momento de profunda crise da Igreja Católica, devido aos desafios sem precedentes vividos naquela ocasião em função do surgimento do racionalismo filosófico, do liberalismo político e econômico, em vigor desde a Revolução Industrial do Século XVIII, além da perda dos Estados Pontifícios com a unificação nacional italiana.
Questões como liberdade religiosa, a separação Igreja-Estado e o racionalismo científico, já haviam sido condenadas pela publicação "Syllabus Errorum" do papa Pio IX, cinco anos antes do primeiro concílio do Vaticano.
O Vaticano II (1962/ 1965), foi praticamente uma reedição do anterior, porém, em circunstâncias bem mais amenas, cuja o propósito maior, era atualizar a Igreja frente à realidade contemporânea da ocasião, que propriamente se opor ao progressismo que fugia ao controle dos sacerdotes católicos.
O próprio uso da palavra utilizada pelo papa João XXIII, como propósito de realização do concílio, "aggiornamento", que significa "atualização", surpreendeu o mundo, pregando abertura litúrgica visando fazer frente ao secularismo acelerado, o pluralismo religioso crescente e os movimentos de libertação observados nos países em desenvolvimento.
Enfim, afirmar que a Igreja Católica teria sido fundada por Constantino, ou mesmo, confundir seu surgimento com o do próprio cristianismo, parece ser exagero, tendo em vista que nos Evangelhos, Jesus só menciona que Pedro seria o chefe da "Igreja", jamais se referindo ao termo "católico".
Ambas as expressões, são originárias do idioma grego; sendo por isso, o termo "Igreja", ter sido provido da palavra "Ekklesia" e que significa "assembleia"; enquanto a expressão, "católico" ou "católica", surgidos algum tempo depois da passagem de Jesus pela história, originalmente era escrita como "katholikos", se referindo a ideia de "universal".
É fato que com o martírio de Pedro, incumbido pelo próprio Cristo para ser chefe da Igreja, no evento ocorrido na colina do Vaticano, onde hoje se encontra construída a Basílica de São Pedro, e que apesar de se tratar de um território independente dentro da cidade de Roma, tem em sua gênese histórica, a comunidade cristã que melhor se estruturou ou se organizou, inicialmente conhecida como "romanos".
Possivelmente, a mesma mencionada em um dos livros do Novo Testamento, em referência a essa comunidade, cuja a autoria é atribuída ao apóstolo Paulo, quando ele estava em Corinto, na Grécia; ocasião em que contou com a ajuda de Tércio.
O Concílio de Niceia, portanto, organizado pelo imperador Constantino, visou, além de sugerir uma doutrina cristã unificada, a ideia de que a Igreja Católica, surgida a partir desses acontecimentos descritos, passasse a prevalecer hegemônica e praticamente exercesse o monopólio da fé, em relação às demais comunidades cristãs que coexistiam, até aquela oportunidade. Algo que só viria a ser rompido, por ocasião da Reforma Protestante no Século XVI.






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